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Filme: A Dama de Ferro (The Iron Lady), EUA, 2011, Phyllida Loyd (dir).

Assisti a A Dama de Ferro, filme pelo qual Maryl Streep concorre ao seu 17o  Oscar ao interpretar a primeira-ministra britânica Margaret Thatcher.  Maryl está perfeita no papel, que representa em dois momentos: na maturidade (a vida pública) e na velhice (a vida privada).

O filme, no entanto, chama mais atenção pela licença poética na composição da personagem, do que pela narrativa.  Como figura histórica, Thatcher é, no mínimo, controversa. Como personagem, opta-se por retratá-la como uma estadista altiva, determinada e fiel aos seus princípios, lutando contra um mundo que não a entende. Discursos, frases de efeito e fatos históricos vão se sucedendo de maneira superficial. Falta antagonistas fortes para que aconteça conflito de fato.

Maryl Streep já fez personagens antipáticas. Em Dúvida, a irmã Aloysius Beauvier, personificação da Inquisição, é uma perseguidora implacável do padre Brendan Flynn, interpretado por Philip Saymor Hoffman. O conflito entre os dois é marcante, complexo e memorável. Sem falar na Miranda Priestly, de O Diabo Veste Prada, torturando seus assistentes.

O problema de A Dama de Ferro é que Meryl não divide a tela com ninguém, nem mesmo com o ator Jim Broadbent, que faz seu marido Denis. Por causa disso, Thatcher é um tanto plana. Mais, ela parece um pretexto para Maryl Streep provar mais uma vez que é uma grande atriz. E é isso que acaba acontecendo: não vamos ao cinema para ver a história da estadista inglesa, mas para ver Maryl Streep atuar.

Não há problema algum nisso, visto que Meryl faz, como sempre, um trabalho sério. Lá estão a caracterização perfeita, o sotaque primoroso e o figurino de tons azuis muito elegante.  Mas a narrativa fica comprometida. Os fatos marcantes são mostrados, os diálogos os descrevem, mas nada está em ação. Em A Rainha, que deu o Oscar a Helen Mirren, também temos o mesmo cuidado na caracterização da personagem. Mas, neste caso, os roteiristas tiveram o juízo de reduzir o enredo a um fato histórico: a morte da princesa Diana. Esse é o incidente que nos leva a conhecer Elizabeth II. E ainda temos Michael Sheen, como Tony Blair, fazendo um ótimo primeiro-ministro.

Em A Dama de Ferro, em nome da mulher forte exemplar, até a política é sacrificada. Para se manter no poder durante 11 anos, discursos e princípios morais são fundamentais, mas não são suficientes. É necessário muita habilidade para compor alianças, fazer concessões, ceder e exigir. O toma-lá-dá-cá não é invenção da política brasileira. Como essas nuances não são abordadas, a Thatcher de Maryl é poderosa, mas sem um lado sombrio, em um filme que ajuda a mitificá-la. Ela não poderia ter desejado melhor homenagem.

Uma alternativa seria entender cada fala como hipocrisia política. Assim, a leitura da oração de São Francisco e as justificativas para a Guerra das Malvinas seriam apenas retórica vazia. Disfarce. Mas não há indícios que permitam seguir por esse caminho. A personagem Margaret Thatcher é honestíssima e fala o que tiver que falar, doa a quem doer.

No final, o que importa mesmo é o Oscar. Nos últimos dias, tenho lido muito sobre a indicação de Meryl Streep ao prêmio. Mais uma vez, lá estará ela radiante, sorridente e simpática. Porém, há um problema sério nessa história toda. Ela é a recordista máxima de indicações: 17. Mas só levou duas. Uma, em 1980, por Kramer x Kramer e a outra, em 1983, por A Escolha de Sofia. Ela ganhou dois prêmios justamente quando Margaret Thatcher estava no auge: há 30 anos.

Isso significa também que ela perdeu 15 vezes. Se fosse comigo, eu estaria bem chateada.  Imagino que para as vencedoras, além de ganhar a estatueta, há aquele sabor de ser em cima de uma unanimidade mundial. Claro que só a indicação em si é um prêmio, mas… Defendo que Maryl Streep deixe de ser uma coadjuvante nas cerimônias do Oscar e ganhe outra estatueta de vez! Que ela deixe de ser a figura hors concours e a escada de talentos menores.  E antes que decida fazer Sarah Palin, Eva Braun, Barbara Bush ou outra mulher conservadora, determinada, porém muito desqualificada.

Filme: O homem que mudou o jogo (Moneyball), EUA, 2011, Bennet Miller (dir).

O homem que mudou o jogo tem uma boa narrativa, forte, que nos segura na cadeira. Conta a história de um homem que testa novas ideias para gerenciar um time de baseball, mas, por isso mesmo, deve enfrentar toda a sorte de resistências e obstáculos. São estes que mantém a ansiedade e o suspense lá em cima durante toda a projeção.

A princípio, parece o mesmo enredo de vários filmes que focam a superação e usam o esporte como pano de fundo. Um time de jogadores medianos, fadado ao fracasso, é liderado por uma pessoa de gênio forte e teimosa que consegue superar as adversidades através da criatividade e do rompimento com o senso comum. É assim que a história se desenrola por mais de dois terços de sua duração.

Mas ao contrário do êxtase de uma plateia que aplaude efusivamente, de um troféu acompanhado de lágrimas, e de um treinador arremessado para cima por seus agradecidos jogadores, a narrativa aqui rompe com o óbvio para terminar, sutilmente, com uma derrota.

Quando o clímax passa, a história continua teimosamente e nos leva a um resultado agridoce. O tema da superação coletiva desaparece e, em seu lugar, Billy Beane, o personagem principal, pergunta: qual o sentido disso tudo?  A fantasia dá lugar às escolhas do coração. A superação, no caso, se torna individual. É um homem que confronta os seus demônios.

Na construção da narrativa, esse caminho faz deste um filme bem interessante. Ele é totalmente focado no personagem principal, interpretado por Brad Pitt, a ponto de Phillip Saymor Hoffman ser, de fato, só um coadjuvante.  Há um toque de filme independente, câmera na mão, imagens desfocadas, fotografia dura, ausência de glamour.  O baseball não é o nosso forte, mas não atrapalha.

Pequeno, seguro, um tanto rebelde. Eis O Homem que mudou o jogo.

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