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Os dois piores filmes do ano se chamam A Proposta, com a Sandra Bullock, e Marido por Acidente, com a Uma Thurman. Pertencem ao pior gênero do cinema americano: a comédia romântica, mestre em exibir cenas constrangedoras e patéticas (alguém assistiu A Feiticeira, com a Nicole Kidman?). No primeiro filme, destaco um  clichê cinematográfico detestável: a cena em que há uma platéia torcendo pelo casal principal. O primeiro beijo acontece no meio de um aniversário e o último (aliás que selinhos puritanos!) no meio de um escritório. Em comum, uma multidão em cena assistindo, torcendo e aplaudindo. Os personagens são mal construídos, a começar pela protagonista. Ryan Reynolds, que tem timing de comédia, está tão canastrão que não consegue atuar. A cena com a avó no helicóptero é vergonhosa de tão ruim. É um tipo de filme burocrático, de fórmula vencida e decadente.  Parece feito para cumprir tabela ou para pagar o feijão e arroz da moçada que trabalha nele. Ryan, que está em ascensão, deveria tomar mais cuidado.

Em Marido por Acaso, quem perde é Colin Firth, um ator talentoso, que conseguiu enterrar a sua carreira para sempre. Colin não está começando e a escolha de um papel desses mostra que ele não tem muitas alternativas. Apesar de delicioso, Mamma Mia já não o trazia no melhor dos papéis de galã. Neste caso, não há nada que funcione em seu personagem e a conclusão é péssima. É o fundo do poço.  Em Hollywood, Colin interpreta sempre o estereótipo do inglês pedante e meio dândi. É o massacre da massificação. Uma Thurman, sem o Tarantino, também não tem nada para fazer no cinema. E a Isabela Rosselini? Meu Deus, mulher! Você é filha da Ingrid Bergman e do Roberto Rosselini. Se dê ao respeito!

Pior do que chegar a essas conclusões assistindo a esses filmes  é compará-los com uma comédia hilariante – e com um ponto de vista bem masculino sobre o que é ser romântico. Falo de Se Beber, Não Case. Primeiro, o filme tem Bradley Cooper, que é lindo de morrer. Depois, tem uma sacada hilária: uma festa de solteiro que se torna um pesadelo surrealista. O filme é um festival de situações inusitadas e engraçadas e os personagens, ótimos.  E, graças a Deus, não termina com um beijo puritano e todo mundo ao redor batendo palmas. Pelo contrário!

O romântico do ponto de vista feminino é sempre mais chato. Há sempre esta protagonista que precisa mudar seus valores, para encontrar o verdadeiro amor.  É a mulher durona, intelectualizada, em posição de liderança, que perdeu seu lado, digamos, acolhedor e maternal. É tolo e conservador. Representa o “verdadeiro amor” um homem que continua muito idealizado. Jeffrey Dean Morgan é perfeito demais em todos os sentidos, por isso mesmo, a gente acaba até sentindo falta de alguns defeitos. Será que ele ronca?

Se Beber, Não Case mostra uma rapaziada bem mais pé no chão. Eles começam (e terminam) como burgueses bonzinhos, mas que – e esse é o filme – piram durante dois dias com muito bom humor. Na comédia masculina, os personagens também passam por mudanças, mas o tom é mais atual, mais humano, mais palpável. Romântico? O que é isto? Neste ponto, a mulherada perde muito, pois o universo feminino refletido no gênero “comédia romântica” é muito simplista e limitado. Por outro lado, perde também em Se Beber, Não Case. Aqui, os papéis são outros: a puta, a naja reprimida, a noivinha patricinha.

Mas tudo pode ser muito pior. Como? Alguém usar dinheiro de renúncia fiscal, de impostos, para fazer um filme intitulado Como Fazer um Filme de Amor, que é uma tentativa malsucedida de parodiar uma comédia romântica. Ah? Pois é.

Foi a cerimônia mais brega dos últimos anos, com dois momentos melodramáticos demais. Primeiro, a premiação a Quem quer ser um Milionário? foi frustrante e medíocre. Segundo, a babação de ovo ao finado Heath Ledger foi exagerada. Era um ator muito talentoso, pena que se foi, mas tinha gente viva merecendo mais do que ele justamente por estar viva e ser tão talentosa quanto. E tinha gente morta no mínimo tão importante quanto ele e merecedora de homenagens iguais. Sentirei falta do Sidney Pollack, do Antony Minguella (morreram prematuramente também) e do Paul Newman.

Foi apenas um sonho é um filme angustiante e com final duvidoso.  A premissa é muito boa: um casal questiona as atitudes que os levaram a uma vida convencional, contra a qual nunca se identificaram, e busca mudanças. April Wheeler (Kate Winslet) e Frank Wheeler (Leonardo DiCaprio) vivem uma vida aparentemente muito boa: têm uma bela casa, belos filhos e ele, um bom emprego. Há harmonia familiar e segurança. É uma vida burguesa exemplar. No entanto, há neles também espírito de aventura e horror pela acomodação e pela convenção. O conflito surge quando, desgastados pela monotonia, eles decidem mudar para Paris, porém Frank recebe uma promoção no trabalho e recua, deixando April sozinha com seu sonho.

Este tema – do questionamento da convenção – já foi abordado em inúmeros filmes, principalmente naqueles feitos nos anos 60 e 70, no auge da contracultura e em uma época de grandes mudanças sociais e individuais. A esquerda triunfava. A burguesia era fonte constante de bons enredos, que mostravam as neuroses e as distorções produzidas por uma vida baseada em valores superficiais, moral rígida e papéis sociais inflexíveis. A família gerava neuroses e cerceava o indivíduo. Alguns (poucos) exemplos: Clamor do Sexo, de Elia Kazan; Cenas de um Casamento, A Hora do Lobo e Gritos e Sussurros, de Ingmar Bergman; Repulsa ao Sexo, do Roman Polanski; O Anjo Exterminador, O Discreto Charme da Burguesia e A Bela da Tarde, do Luis Buñuel; A Noite, do Michelangelo Antonioni; Uma Mulher sob Influência, do John Cassavetes. Tantos autores maravilhosos!  Há bons exemplos nacionais também, como as peças de Nelson Rodrigues e filmes maravilhosos que surgiram a partir delas como A Falecida, de Leon Hirshman e Toda Nudez Será Castigada, de Arnaldo Jabor. Naquela época – e ainda quando assistidos – esses filmes tocavam a convencionalidade burguesa com tanta maestria que até hoje são fonte de inspiração e de iluminação.

Mas e quando um filme contemporâneo tenta tocar neste assunto? Sem conseguir o resultado de seus antecessores, Foi apenas um sonho nos faz perguntar se a premissa do filme ainda é válida nos dias de hoje, visto que as escolhas individuais são infinitamente mais toleradas do que eram (levando-se em conta o pano de fundo da história: burguesia urbana, ocidental, escolarizada e laica). Acho que o próprio filme responde: enquanto seus antepassados eram ligados ao seu momento histórico, este drama é um filme de época. Só esta escolha já basta para mostrar que a questão mudou. Mantido o cenário, a premissa falha. Para dialogar com o passado, Sam Mendes poderia ter feito um filme atual. Aliás, pensando bem, faltam filmes que questionam os valores burgueses nos dias de hoje, esta época difusa e estranha em que os mocinhos e os bandidos andam se confundindo e na qual a ética nas relações tornou-se assunto mais do que relevante.

Como as protagonistas de Clamor do Sexo e de Toda Nudez Será Castigada, April Wheeler faz uma opção radical e violenta. Ao longo da narrativa, ela cai em um buraco sombrio, que fica cada vez mais fundo e do qual não há saída. Neste ponto, há um interessante paralelo entre o que acontece dentro da casa e o que acontece dentro da personagem que são o contrário da  paisagem bonitinha e calma do subúrbio e da beleza e vivacidade externadas pela protagonista. Os atores principais estão muito bem, igualmente o coadjuvante Michael Shannon, que interpreta John Givings, este sim uma espécie de anjo exterminador que implacavelmente destrói qualquer tentativa de re-equilíbrio com seus argumentos crus e verdadeiros.

 O final reservado a April só funciona se a personagem é elevada à categoria de mártir ou de exemplo. Ela precisa morrer, para que nós possamos continuar o que ela não conseguiu fazer, para que não caiamos na mesma armadilha. Porém, como pessoa, como possível realidade, falta-lhe maturidade, amor, tolerância, espiritualidade e, principalmente, um plano B. Aliás, faltam vários planos B. Falta-lhe uma mente mais aberta e um bom psicanalista. Como mulher, April é patética. O filme, no final, é uma narrativa sobre uma situação social – inaceitável para ela – e que lhe desencadeia uma depressão que não é reconhecida (nem por ela, nem por ninguém) e que não é tratada. April é uma anti-heroína. É uma sombra. Doente, angustiada, frustrada, deprimida e vazia. Que carma! Deus me livre cair numa situação dessas.

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