Filmes:
A Última Tempestade (Propero’s Books), Reino Unido, França Holanda, Japão, 1991, Peter Greenaway (dir).
A Tempestade (The Tempest), EUA, 2010, Julie Taymor (dir.)
por Carla Dórea Bartz
Tenho o hábito de acompanhar com atenção as adaptações de peças de Shakespeare para o cinema desde meus tempos de USP. Esta semana, dediquei-me a A Tempestade, último trabalho do autor, que assisti em duas versões.
A primeira, lançada em 2010, foi dirigida por Julie Taymor, diretora americana com poucos filmes, mas uma longa carreira no teatro e uma formação que inclui especialização em mitologia.
A segunda, intitulada Prospero’s Books em inglês, estreou em 1991 e foi dirigida por Peter Greenaway, diretor inglês de títulos importantes como O Cozinheiro, o Ladrão, sua Mulher e o Amante e, o meu preferido, O Livro de Cabeceira. Greenaway é um artista múltiplo, que estudou pintura antes de começar no cinema.
A Tempestade fala sobre traição, vingança, arrependimento e perdão. É a história de Próspero, um poderoso mago que vive exilado em uma ilha com sua filha Miranda, após ter sido destituído de seu ducado em Milão. A peça é sobre sua libertação. Para isso, Próspero lança mão das artes mágicas, aprendidas durante longos anos de estudo.
Ele é um alquimista e filósofo, ligado às escolas de mistérios, que Shakeaspeare, vivendo na Idade Média, sabia muito bem o que significava.
Com tema tão criativo, mas meio renegado nos nossos dias, os diretores realizaram filmes muito diferentes entre si, porém, com enorme sensibilidade. Retratam a magia de Próspero, sem representa-la de maneira caricatural, simplificada ou, pior ainda, aproveitando-se dos recursos ilimitados dos efeitos especiais, exaltá-la além do que a narrativa propõe. Os dois filmes são muito bonitos e revelam o gênio de cada criador e seu respeito e admiração ao texto original.
Próspera
Tendo encenado A Tempestade no teatro, Taymor levou para o cinema esta experiência. Cenários, música, figurinos e atores se encaixam perfeitamente.
Para começar, ressalto um toque transformador: o protagonista torna-se uma feiticeira interpretada por Helen Mirren. Tal mudança muda a peça completamente, sem alterar sua essência.
Mirren é ótima como Próspera. No making of, Taymor explica que este é um dos poucos personagens de Shakespeare que permite esta mudança sem que ocorra alteração na narrativa, a não ser em algumas palavras do texto.
Para dar vida à magia de Próspera, a diretora usa locações naturais e efeitos especiais na medida. O cenário onde se desenrolam as cenas é uma ilha vulcânica com paisagens áridas e cheias de contraste. O mar encontra rochas e praias de areias negras, brancas e de cor avermelhada, criando uma atmosfera irreal, na qual os quatro elementos são representados.
Próspera domina e manipula seu ambiente e todos que ali habitam. O jornalista da revista New Yorker, David Demby, a descreveu como “uma mulher que detém um controle sem precedentes sobre os elementos da natureza e os homens”.
Próspera cria a tempestade que irá mudar a sua vida e a da filha. Ela conta com a ajuda fiel do doce Ariel, um espírito elemental, um sílfide, interpretado pelo ator Ben Wishaw, o mesmo de Perfume. Os dois juntos têm ótimas cenas e o resultado é encantador.
24 livros imperdíveis
Já o filme de Greenaway é uma overdose de imagens. Uma pintura em movimento, emoldurada por figuras que lembram quadros de Botticelli, Rafael e outros renascentistas.
Próspero é interpretado por John Gielgud, grande ator inglês, que já havia feito o personagem nos palcos. Ao contrário da versão anterior, os cenários são todos em estúdio e representam interiores de palácios com arquitetura clássica.
Mesmo assim, os quatro elementos estão todos lá, porém confinados nessas paredes. Os espíritos elementais surgem às dezenas, representados por mulheres, homens, gordos, magros, velhos, jovens, crianças que surgem nus em todas as cenas. Tais figuras lembram também Satyricon, de Federico Fellini.
Greenaway faz um filme mais difícil para quem não conhece a peça. Ele é lento, operístico, poético, exagerado. Porém, ao contrário da versão mais recente, os livros são parte importante, quase, personagens: “… volumes that I prize above my dukedom”, diz Próspero.
Greenaway cria 24 livros, com títulos como Livro das Utopias, Livro do Movimento, Livro da Água, Livro da Terra, etc. Um descrição de cada um pode ser lida neste artigo da revista Zunai: http://bit.ly/ck1piu . O número 24 parece remeter à frase do personagem Bruno Forestier, no filme O Pequeno Soldado (1963), de Jean-Luc Godard, “a fotografia é a verdade, e o cinema é 24 vezes a verdade por segundo”.
Ariel é um espírito interpretado por quatro atores de idades diferentes, vestidos como querubins, que aparecem simultaneamente.
Na minha opinião, Greenaway fez apenas um escolha complicada. Em sua versão, Próspero fala com seus pares por telepatia. Isso significa que, tirando Gielgud, todos os outros atores estão mudos em cena e suas falas são ouvidas em off. Miranda, por exemplo, tem dois offs superpostos (um masculino e um feminino). Isso faz com que ela não tenha voz própria. Parece que o pai domina seus pensamentos e ela apenas responde o que ele quer.
Taymor, procurando ser mais pé no chão, escalou um time de atores excelentes para o elenco, como Alfred Molina e Russel Brand. Dessa forma, os personagens ganham mais vida. Saem da pintura. Destaco ainda o casal formado por Felicity Jones (Miranda) e Reeve Carney (Príncipe Ferdinand). São tão bonitos como Romeu + Julieta (Leonardo DiCaprio e Claire Danes) na versão de Baz Luhrmann.
Por fim, faço uma referência a uma figura controversa: Caliban, escravo de Próspero/Próspera. Representação de um elemental da terra, ele simboliza o instinto puro. Ao final, em Greenaway, ele é punido juntamente com os bufões. Mas em Taymor, ele é, enfim, libertado para ser o dono da ilha.
Como diz Próspero: “we are such stuff as dreams are made on, and our little life is rounded with a sleep“. Com tanta riqueza simbólica, o texto e os filmes são assuntos inesgotáveis!
Que venha Coriolanus, dirigido e interpretado por Ralph Fiennes.
@carladoreabartz / facebook.com/carladorea.bartz


