Foi apenas um sonho é um filme angustiante e com final duvidoso. A premissa é muito boa: um casal questiona as atitudes que os levaram a uma vida convencional, contra a qual nunca se identificaram, e busca mudanças. April Wheeler (Kate Winslet) e Frank Wheeler (Leonardo DiCaprio) vivem uma vida aparentemente muito boa: têm uma bela casa, belos filhos e ele, um bom emprego. Há harmonia familiar e segurança. É uma vida burguesa exemplar. No entanto, há neles também espírito de aventura e horror pela acomodação e pela convenção. O conflito surge quando, desgastados pela monotonia, eles decidem mudar para Paris, porém Frank recebe uma promoção no trabalho e recua, deixando April sozinha com seu sonho.
Este tema – do questionamento da convenção – já foi abordado em inúmeros filmes, principalmente naqueles feitos nos anos 60 e 70, no auge da contracultura e em uma época de grandes mudanças sociais e individuais. A esquerda triunfava. A burguesia era fonte constante de bons enredos, que mostravam as neuroses e as distorções produzidas por uma vida baseada em valores superficiais, moral rígida e papéis sociais inflexíveis. A família gerava neuroses e cerceava o indivíduo. Alguns (poucos) exemplos: Clamor do Sexo, de Elia Kazan; Cenas de um Casamento, A Hora do Lobo e Gritos e Sussurros, de Ingmar Bergman; Repulsa ao Sexo, do Roman Polanski; O Anjo Exterminador, O Discreto Charme da Burguesia e A Bela da Tarde, do Luis Buñuel; A Noite, do Michelangelo Antonioni; Uma Mulher sob Influência, do John Cassavetes. Tantos autores maravilhosos! Há bons exemplos nacionais também, como as peças de Nelson Rodrigues e filmes maravilhosos que surgiram a partir delas como A Falecida, de Leon Hirshman e Toda Nudez Será Castigada, de Arnaldo Jabor. Naquela época – e ainda quando assistidos – esses filmes tocavam a convencionalidade burguesa com tanta maestria que até hoje são fonte de inspiração e de iluminação.
Mas e quando um filme contemporâneo tenta tocar neste assunto? Sem conseguir o resultado de seus antecessores, Foi apenas um sonho nos faz perguntar se a premissa do filme ainda é válida nos dias de hoje, visto que as escolhas individuais são infinitamente mais toleradas do que eram (levando-se em conta o pano de fundo da história: burguesia urbana, ocidental, escolarizada e laica). Acho que o próprio filme responde: enquanto seus antepassados eram ligados ao seu momento histórico, este drama é um filme de época. Só esta escolha já basta para mostrar que a questão mudou. Mantido o cenário, a premissa falha. Para dialogar com o passado, Sam Mendes poderia ter feito um filme atual. Aliás, pensando bem, faltam filmes que questionam os valores burgueses nos dias de hoje, esta época difusa e estranha em que os mocinhos e os bandidos andam se confundindo e na qual a ética nas relações tornou-se assunto mais do que relevante.
Como as protagonistas de Clamor do Sexo e de Toda Nudez Será Castigada, April Wheeler faz uma opção radical e violenta. Ao longo da narrativa, ela cai em um buraco sombrio, que fica cada vez mais fundo e do qual não há saída. Neste ponto, há um interessante paralelo entre o que acontece dentro da casa e o que acontece dentro da personagem que são o contrário da paisagem bonitinha e calma do subúrbio e da beleza e vivacidade externadas pela protagonista. Os atores principais estão muito bem, igualmente o coadjuvante Michael Shannon, que interpreta John Givings, este sim uma espécie de anjo exterminador que implacavelmente destrói qualquer tentativa de re-equilíbrio com seus argumentos crus e verdadeiros.
O final reservado a April só funciona se a personagem é elevada à categoria de mártir ou de exemplo. Ela precisa morrer, para que nós possamos continuar o que ela não conseguiu fazer, para que não caiamos na mesma armadilha. Porém, como pessoa, como possível realidade, falta-lhe maturidade, amor, tolerância, espiritualidade e, principalmente, um plano B. Aliás, faltam vários planos B. Falta-lhe uma mente mais aberta e um bom psicanalista. Como mulher, April é patética. O filme, no final, é uma narrativa sobre uma situação social – inaceitável para ela – e que lhe desencadeia uma depressão que não é reconhecida (nem por ela, nem por ninguém) e que não é tratada. April é uma anti-heroína. É uma sombra. Doente, angustiada, frustrada, deprimida e vazia. Que carma! Deus me livre cair numa situação dessas.
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