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Foi a cerimônia mais brega dos últimos anos, com dois momentos melodramáticos demais. Primeiro, a premiação a Quem quer ser um Milionário? foi frustrante e medíocre. Segundo, a babação de ovo ao finado Heath Ledger foi exagerada. Era um ator muito talentoso, pena que se foi, mas tinha gente viva merecendo mais do que ele justamente por estar viva e ser tão talentosa quanto. E tinha gente morta no mínimo tão importante quanto ele e merecedora de homenagens iguais. Sentirei falta do Sidney Pollack, do Antony Minguella (morreram prematuramente também) e do Paul Newman.

Foi apenas um sonho é um filme angustiante e com final duvidoso.  A premissa é muito boa: um casal questiona as atitudes que os levaram a uma vida convencional, contra a qual nunca se identificaram, e busca mudanças. April Wheeler (Kate Winslet) e Frank Wheeler (Leonardo DiCaprio) vivem uma vida aparentemente muito boa: têm uma bela casa, belos filhos e ele, um bom emprego. Há harmonia familiar e segurança. É uma vida burguesa exemplar. No entanto, há neles também espírito de aventura e horror pela acomodação e pela convenção. O conflito surge quando, desgastados pela monotonia, eles decidem mudar para Paris, porém Frank recebe uma promoção no trabalho e recua, deixando April sozinha com seu sonho.

Este tema – do questionamento da convenção – já foi abordado em inúmeros filmes, principalmente naqueles feitos nos anos 60 e 70, no auge da contracultura e em uma época de grandes mudanças sociais e individuais. A esquerda triunfava. A burguesia era fonte constante de bons enredos, que mostravam as neuroses e as distorções produzidas por uma vida baseada em valores superficiais, moral rígida e papéis sociais inflexíveis. A família gerava neuroses e cerceava o indivíduo. Alguns (poucos) exemplos: Clamor do Sexo, de Elia Kazan; Cenas de um Casamento, A Hora do Lobo e Gritos e Sussurros, de Ingmar Bergman; Repulsa ao Sexo, do Roman Polanski; O Anjo Exterminador, O Discreto Charme da Burguesia e A Bela da Tarde, do Luis Buñuel; A Noite, do Michelangelo Antonioni; Uma Mulher sob Influência, do John Cassavetes. Tantos autores maravilhosos!  Há bons exemplos nacionais também, como as peças de Nelson Rodrigues e filmes maravilhosos que surgiram a partir delas como A Falecida, de Leon Hirshman e Toda Nudez Será Castigada, de Arnaldo Jabor. Naquela época – e ainda quando assistidos – esses filmes tocavam a convencionalidade burguesa com tanta maestria que até hoje são fonte de inspiração e de iluminação.

Mas e quando um filme contemporâneo tenta tocar neste assunto? Sem conseguir o resultado de seus antecessores, Foi apenas um sonho nos faz perguntar se a premissa do filme ainda é válida nos dias de hoje, visto que as escolhas individuais são infinitamente mais toleradas do que eram (levando-se em conta o pano de fundo da história: burguesia urbana, ocidental, escolarizada e laica). Acho que o próprio filme responde: enquanto seus antepassados eram ligados ao seu momento histórico, este drama é um filme de época. Só esta escolha já basta para mostrar que a questão mudou. Mantido o cenário, a premissa falha. Para dialogar com o passado, Sam Mendes poderia ter feito um filme atual. Aliás, pensando bem, faltam filmes que questionam os valores burgueses nos dias de hoje, esta época difusa e estranha em que os mocinhos e os bandidos andam se confundindo e na qual a ética nas relações tornou-se assunto mais do que relevante.

Como as protagonistas de Clamor do Sexo e de Toda Nudez Será Castigada, April Wheeler faz uma opção radical e violenta. Ao longo da narrativa, ela cai em um buraco sombrio, que fica cada vez mais fundo e do qual não há saída. Neste ponto, há um interessante paralelo entre o que acontece dentro da casa e o que acontece dentro da personagem que são o contrário da  paisagem bonitinha e calma do subúrbio e da beleza e vivacidade externadas pela protagonista. Os atores principais estão muito bem, igualmente o coadjuvante Michael Shannon, que interpreta John Givings, este sim uma espécie de anjo exterminador que implacavelmente destrói qualquer tentativa de re-equilíbrio com seus argumentos crus e verdadeiros.

 O final reservado a April só funciona se a personagem é elevada à categoria de mártir ou de exemplo. Ela precisa morrer, para que nós possamos continuar o que ela não conseguiu fazer, para que não caiamos na mesma armadilha. Porém, como pessoa, como possível realidade, falta-lhe maturidade, amor, tolerância, espiritualidade e, principalmente, um plano B. Aliás, faltam vários planos B. Falta-lhe uma mente mais aberta e um bom psicanalista. Como mulher, April é patética. O filme, no final, é uma narrativa sobre uma situação social – inaceitável para ela – e que lhe desencadeia uma depressão que não é reconhecida (nem por ela, nem por ninguém) e que não é tratada. April é uma anti-heroína. É uma sombra. Doente, angustiada, frustrada, deprimida e vazia. Que carma! Deus me livre cair numa situação dessas.

A estrutura narrativa em Benjamin Button mistura elementos do drama puro com elementos épicos, criando uma obra singular. Isto não é uma novidade nem no teatro, nem no cinema, onde grandes autores de ambas as artes utilizaram estas experimentações, originalmente teorizadas e aplicadas por Bertold Brecht. Em Benjamin Button, o debate que se seguiu ao seu lançamento conteve críticas injustas feitas justamente a escolhas que são autorais e artísticas: contar uma história a partir de um pano de fundo dramático completado por elementos épicos. O problema do debate foi confundir essas escolhas e chamá-las de defeitos, quando elas são, na verdade, conscientes e intencionais.

A dramática em Benjamin Button está no romance entre Daisy e Benjamin. Esse romance encadeia a narrativa. O tempo vai passando e, como nas histórias de amor clássicas, vemos os dois personagens se conhecerem, se apaixonarem e enfrentarem obstáculos que os mantém separados por boa parte de suas vidas. O impedimento principal é o fator que carrega a trama: a “doença” do protagonista. Os outros são conseqüências deste e estão ligados às decisões do par romântico diante da situação. A aparente diferença de idade faz com que eles se separem: Daisy tenta seduzi-lo e ele a recusa, depois é ela (em Nova York) que o manda embora. Mais tarde, já em Paris, após o acidente, ela também o repele. Por fim, cabe a Benjamin uma decisão final que é partir após o nascimento da filha, mas aí, não se trata mais de peripécia, mas sim uma decisão conclusiva.

Se fizermos um recorte e separarmos todas as cenas de interação entre Daisy e Benjamin teremos um filme de amor, que se resolve. Há uma ação encadeada, que envolve o espectador, o emociona, o entretém, que é praticamente linear e que faz o filme ter começo, meio e fim. Todo o resto, ou seja, todas as experiências de vida de Benjamin Button contadas de maneira episódicas são épicas. São os elementos que nos colocam como observadores, tanto quanto é observador o próprio narrador: a vida no asilo, a experiência da morte próxima, as viagens, os fatos históricos, os personagens que vêm e vão.

Foi este lado observador, aparentemente sem motivação, que provocou críticas ao filme, porque nas leis do drama, um personagem principal sempre tem objetivos bem definidos. Porém, na épica não. É esta característica que engrandece a história pois desloca a narrativa de uma posição ativa e evolutiva para uma posição reflexiva e em face do contexto em si. Três cenas no filme são chave para entender esta questão: de um diálogo com sua mãe, Benjamin aprende que a morte é a única certeza, de sua amiga pianista, ele aprende a dor da perda e de seu amigo pigmeu, ele entende sua solidão. Eis o que faz, em minha opinião, deste um grande filme: a maneira como aborda temas tão pulsantes.

Destaco também, o papel do asilo como o cenário mais importante da trama. Tudo começa e termina no asilo, ante-sala da morte. Diante de sua condição, Benjamin é obrigado a conviver com esses temas – a morte, a perda, a solidão – diariamente, o que o separa dos seus semelhantes e o coloca numa posição de acostumada lucidez. Benjamin é um personagem simbólico que vaga pela vida consciente de que está só de passagem, amigo intimo de um relógio que ele compreende de maneira diferente dos demais, nos convidando, como espectadores, a dividir com ele esta compreensão.

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