Sabia que há semelhanças entre o filme do Martin Scorcese, Rolling Stones – Shine a Light e o da Lais Bodanski, Chega de Saudade? Uma delas são as rugas. Como tem rugas nesses filmes. São as rugas do Mick Jagger, do Keith Richards e são as rugas do elenco da cineasta paulista. Esta, inclusive faz questão dos close ups. Rugas são quase um personagem. A segunda semelhança é, óbvio, a musicalidade. Os dois filmes são cheios de música. Mas aí vem a diferença: no tom. A música em ambos é ótima, cada qual no seu ritmo, tudo certo. Mas Chega de Saudade está preso ao passado, à decadência, dá prá sentir o cheiro de mofo. Já Shine a Light vive o presente. São dois filmes totalmente diferentes sobre o que é envelhecer. Tudo está na percepção do tempo: ou você vive no passado ou você vive o seu dia-a-dia e vai em frente. Fazendo essas digressões, me dei conta que os Stones ainda são tão transgressores quanto eram nos anos 60. Só que agora eles subvertem o envelhecer de uma maneira maravilhosa. O rock não tem idade. Não tinha e não tem. Em Chega de Saudade, os personagens estão presos a convenções tão, meu Deus, tão infelizes. Um homem não pode deixar uma dama sozinha no salão, diz Tônia Carrero a Leonardo Villar (esta é a parte da homenagem ao cinema brasileiro no filme). Sei lá, tem gente assim no mundo. Mick Jagger não tem tempo para sentir saudades. Suas músicas são antigas, algumas têm mais de 40 anos. Mas o que importa? Importa estar ali, agora, no show (palanque de Hilary Clinton, o único senão). No filme de Bodanski há um personagem que poderia estar no filme do Scorcese. É Elza Soares. A cantora tem o mesmo gás e garra do quarteto inglês. Se estivesse no filme do americano e cantasse Satisfaction, arrazaria.