Boys have more fun!

agosto 24, 2009

Os dois piores filmes do ano se chamam A Proposta, com a Sandra Bullock, e Marido por Acidente, com a Uma Thurman. Pertencem ao pior gênero do cinema americano: a comédia romântica, mestre em exibir cenas constrangedoras e patéticas (alguém assistiu A Feiticeira, com a Nicole Kidman?). No primeiro filme, destaco um  clichê cinematográfico detestável: a cena em que há uma platéia torcendo pelo casal principal. O primeiro beijo acontece no meio de um aniversário e o último (aliás que selinhos puritanos!) no meio de um escritório. Em comum, uma multidão em cena assistindo, torcendo e aplaudindo. Os personagens são mal construídos, a começar pela protagonista. Ryan Reynolds, que tem timing de comédia, está tão canastrão que não consegue atuar. A cena com a avó no helicóptero é vergonhosa de tão ruim. É um tipo de filme burocrático, de fórmula vencida e decadente.  Parece feito para cumprir tabela ou para pagar o feijão e arroz da moçada que trabalha nele. Ryan, que está em ascensão, deveria tomar mais cuidado.

Em Marido por Acaso, quem perde é Colin Firth, um ator talentoso, que conseguiu enterrar a sua carreira para sempre. Colin não está começando e a escolha de um papel desses mostra que ele não tem muitas alternativas. Apesar de delicioso, Mamma Mia já não o trazia no melhor dos papéis de galã. Neste caso, não há nada que funcione em seu personagem e a conclusão é péssima. É o fundo do poço.  Em Hollywood, Colin interpreta sempre o estereótipo do inglês pedante e meio dândi. É o massacre da massificação. Uma Thurman, sem o Tarantino, também não tem nada para fazer no cinema. E a Isabela Rosselini? Meu Deus, mulher! Você é filha da Ingrid Bergman e do Roberto Rosselini. Se dê ao respeito!

Pior do que chegar a essas conclusões assistindo a esses filmes  é compará-los com uma comédia hilariante – e com um ponto de vista bem masculino sobre o que é ser romântico. Falo de Se Beber, Não Case. Primeiro, o filme tem Bradley Cooper, que é lindo de morrer. Depois, tem uma sacada hilária: uma festa de solteiro que se torna um pesadelo surrealista. O filme é um festival de situações inusitadas e engraçadas e os personagens, ótimos.  E, graças a Deus, não termina com um beijo puritano e todo mundo ao redor batendo palmas. Pelo contrário!

O romântico do ponto de vista feminino é sempre mais chato. Há sempre esta protagonista que precisa mudar seus valores, para encontrar o verdadeiro amor.  É a mulher durona, intelectualizada, em posição de liderança, que perdeu seu lado, digamos, acolhedor e maternal. É tolo e conservador. Representa o “verdadeiro amor” um homem que continua muito idealizado. Jeffrey Dean Morgan é perfeito demais em todos os sentidos, por isso mesmo, a gente acaba até sentindo falta de alguns defeitos. Será que ele ronca?

Se Beber, Não Case mostra uma rapaziada bem mais pé no chão. Eles começam (e terminam) como burgueses bonzinhos, mas que – e esse é o filme – piram durante dois dias com muito bom humor. Na comédia masculina, os personagens também passam por mudanças, mas o tom é mais atual, mais humano, mais palpável. Romântico? O que é isto? Neste ponto, a mulherada perde muito, pois o universo feminino refletido no gênero “comédia romântica” é muito simplista e limitado. Por outro lado, perde também em Se Beber, Não Case. Aqui, os papéis são outros: a puta, a naja reprimida, a noivinha patricinha.

Mas tudo pode ser muito pior. Como? Alguém usar dinheiro de renúncia fiscal, de impostos, para fazer um filme intitulado Como Fazer um Filme de Amor, que é uma tentativa malsucedida de parodiar uma comédia romântica. Ah? Pois é.


Sci-Fi e filmes de heróis

julho 4, 2009

As ficções científicas este ano não estão memoráveis, apesar dos efeitos especiais melhorarem cada vez mais. A seguir, algumas palavras sobre quatro filmes recentes: o primeiro passou em janeiro, mês fraco de filmes, e se chama O Dia em que a Terra Parou, com o Keanu Reeves. O outro é Watchmen – O Filme. Na mesma linha, estrearam agora em maio, Star Trek e Wolverine.

O Dia em que a Terra Parou tem como destaque um enredo bíblico, mais precisamente do antigo testamento: a intervenção de uma força divina (hoje chamada extraterrestre, antigamente era Deus mesmo) nos destinos da humanidade. Klaatu (Keanu Reeves) é um mensageiro da galáxia que vem à Terra organizar e acionar a destruição de toda a nossa civilização pelo simples fato de que não somos dignos de habitá-la. Somos malignos, autodestrutivos, egocêntricos e corruptos. Sodoma e Gomorra.

Ao longo da narrativa, acompanhamos Klaatu realizar a sua tarefa e aprender a lidar com os terráqueos. Klaatu tem uma inteligência além do nosso alcance e a reação humana (americana) à sua presença é autoritária, narcísica, violenta e burra. Reação típica e, neste ponto, o filme ganha ares alegóricos. Como não consegue lidar com um poder desconhecido sem quebrar paradigmas, o planeta é quase destruído. Quem o salva é a cientista Helen Benson (Jennifer Connelly) que consegue fazer Klaatu mudar de idéia através do amor que demonstra pelo seu filho adotivo. 

Este tipo de enredo é básico e ótimo para a ficção científica porque é uma maneira de reinterpretar mitos como o da Arca de Noé. Demonstra também como estas histórias exemplares e metafóricas ainda fazem parte de nossas vidas, mesmo se contadas com outras roupas. Interessante é a figura da mulher, do feminino, como mediadora entre um poder superior e a pequenez humana. Quase que chegamos ao Auto da Compadecida. Mas não é cristã a base mitológica deste filme. Ela é mais pagã.  Se fosse crístico, Klaatu se chamaria Kal-El e teria vindo para nos salvar e não para nos destruir.  Klaatu pode representar tanto o Deus hebreu, do primeiro testamento, como antigas manifestações greco-romanas. Há algo de Perséfone na Helen.

Visto por esse ângulo, a narrativa, acompanhada pelos ótimos efeitos especiais, tem certo interesse, mas o tema poderia ter sido melhor explorado e melhor atualizado. Faltaram diálogos e construção mais sólida e consistente dos personagens e das idéias que motivaram contar a história. A resolução é inverossímil. Ficou muito simples, quase como um filme de aventura, quando tinha tudo para ser memorável.

Já Watchmen tem momentos ótimos, transcendentes, porém o pacote, o todo é, no máximo, razoável. O filme tem quase três horas de duração para construir uma ficção científica que acontece no passado. Isto é bem original! No filme, o mundo era bem pior do que foi realmente e tinha esses super-heróis narcisistas, de direita, neuróticos, inseguros e megalomaníacos. Um perigo para a humanidade! Os personagens são explicitamente de direita: são racistas, defendem a ordem e a segurança pública e estão a serviço do governo americano, como armas de guerra. Essa é uma ótima sacada, afinal, justiceiros como Batman são, na verdade, criminosos, que agem quando o Estado, representando a sociedade como um todo, não consegue agir. O justiceiro ou o vigilante (Watchmen) se arvora um poder acima da lei. Isto não pode. Se todo mundo sair por aí se vingando, não será possível conviver e aí, acaba a sociedade. Digamos que a descrição psicológica dos Watchmen é coerente com a falência de uma sociedade que necessita de super-heróis.

O que falha em Watchmen é um personagem: o Dr. Manhattan (Billy Crudup). O Dr. Manhattan é maravilhoso. Por causa da radioatividade, o personagem desmaterializou-se e transcendeu. Ele é azul e milagrosamente nu durante bons momentos do filme (é tão raro ver nudez frontal masculina no cinema mainstream que o filme já valeu por isso). Seu poder permite que ele vá até Marte num piscar de olhos e sobreviva à força da gravidade, à falta de oxigênio e às temperaturas e ventos do inóspito planeta. Ele visita a Lua regularmente. Transa com a namorada e, ao mesmo tempo, constrói tecnologias futuristas. Ele pode prever o futuro e é desapegado. É um misto de iogue com cientista do MIT.

Se no filme O Dia em que a Terra Parou, Klaatu tem algo de bíblico, em Watchmen os personagens são todos inspirados nas mitologias pagãs. Eles são como deuses gregos disfarçados, com todas as idiossincrasias que essas divindades também tinham. Há coerência se levarmos em conta que eles são bem humanos e seus poderes dependem de treinamento e de tecnologia. Já o Dr. Manhattan não. O cara é quase um deus, uma avatar. Mas apesar de transcender a matéria, ele não evolui a ponto de se tornar um ser de mente absolutamente livre, que seria a grande sacada. Pensei em entrar no campo da espiritualidade, mas vou deixar de lado. Ele é apegado a soluções pequenas. Comporta-se como um alienado. É decepcionante como, ao final, ele aceita os argumentos destrutivos do Ozymandias (apresentado como o homem mais inteligente do mundo). O problema é que o argumento não tem nada de inteligente: a destruição da cidade de Nova York para o bem do resto do mundo, ou seja, os fins justificam os meios.  A impressão final é a de que o roteiro é ruim: os autores não conseguiram encontrar uma solução mais adequada para o problema que criaram. Era óbvio que o Dr. Manhattan tinha que matar o Ozymandias e salvar Nova York.  

Já Hugh Jackman fica nu, mas só de costas ou de lado, pois ele é um ator mais caro que o Billy Crudup (o Russell, de Quase Famosos). Wolverine é um filme de ação do começo ao fim e, como diria Alexandra, a personagem de Aleksandr Sokurov no filme de mesmo nome, “tem cheiro de homem”. O legal de assistir a filmes de ação como esse é o retrato do masculino que projetam.  O homem de ação, em ação, resoluto, impiedoso e, quando necessário, amoroso e sensível. É demais.

Tem uma coisa freak no filme. No início, Wolverine não tem aquelas garras de adamiantum mas sim, de ossos que lhe saem das juntas das mãos pois ele é um mutante. Aquilo é muito esquisito. Até meio nojento de assistir. Parecem dedos sem pele.

Quanto à série X-Men, confesso que eu não gosto muito. Há momentos dos filmes anteriores que eu sinto vergonha de assistir. É que a Helle Barry de Tempestade tem algo de ridículo. Os personagens nos quadrinhos são muito melhores. Hugh Jackman dá a Wolverine o carisma que ele merece, com o sex appeal necessário. Quase cai no ridículo também, mas passa. É que nem Batman. Eu adoro o personagem, mas aquela roupa. Aquela máscara com orelhas pontudas! Bom, deixa prá lá. Eu devia me concentrar em assistir só filmes de arte.

Voltando a Wolverine, há uma cena de luta, no alto de um reator nuclear desativado, em que o personagem aparece de perfil sob um céu nublado. É maravilhosa. É aquele encontro perfeito entre a fotografia cinematográfica e o ator, mostrando que nasceram um para o outro. No mais, a narrativa é bem tosca. Em dado momento, há um assassino matando mutantes que lembra muito o Watchmen. Depois, o filme segue seu curso, com um complô do governo americano. Mas tudo é muito rápido demais para que o desenvolvimento dramático se sustente.  É que nesses filmes, as cenas de ação precisam de um tempo maior, sufocando tudo que for narrativo.  Com isso, há pelo menos dois momentos bem mal resolvidos: o romance de Wolverine e como ele recebeu o seu nome e, depois, quando ele é recebido pelo casal Kent, desculpa, os velhinhos fazendeiros cujo filho morreu e que o adotam em questão de minutos e lhe dão a moto e as roupas que são sua marca registrada.

No mais, como tem sido nos filmes americanos recentes, há muita alegoria nacional (cito aqui o Ismail Xavier). Wolverine e seu irmão são heróis de guerra – de todas as guerras – que vão se desiludindo com o lado em que estão. Um dos irmãos surta e vai para o lado negro da força. Wolverine, no entanto, mantém a integridade e é punido por isso. É um soldado que desiste de lutar na cavalaria porque esta se revelou inútil e sem razões fortes o suficiente para justificar a luta. A cavalaria está errada. Este é o lado alegórico da trama, que remete a Watchmen e a O Dia em que a Terra Parou. Nitidamente, esta é uma tendência do cinema americano. O soldado sem pátria ou, pior, uma pátria que é a inimiga. No caso de Wolverine, isso vai às últimas conseqüências, com ele perdendo a memória e, ao final do filme, negando suas raízes (detalhe: essa cena está após os créditos finais). Será que o filme está sugerindo, de maneira conservadora, que a alienação é a saída?

Esse tema da pátria como o império do mal, como a encarnação do lado negro da força, ainda dá  muito pano pra manga. É uma verdade universalmente aceita que George Bush era o Darth Vader. Vamos ver agora como fica com o Obama.

Já Star Trek é um filme adolescente, muito bom para quem tem filhos pequenos e que estão chegando ao cinema. É para um público bem específico. Para quem acompanhou as séries, nos últimos 40 e tantos anos, é decepcionante. Tanto Wolverine quanto Star Trek terminam pedindo continuação. Wolverine, como James Bond, tem fôlego. Já Star Trek pode continuar na TV, que não faz diferença.


Se dê ao respeito, Oscar!

março 27, 2009

Foi a cerimônia mais brega dos últimos anos, com dois momentos melodramáticos demais. Primeiro, a premiação a Quem quer ser um Milionário? foi frustrante e medíocre. Segundo, a babação de ovo ao finado Heath Ledger foi exagerada. Era um ator muito talentoso, pena que se foi, mas tinha gente viva merecendo mais do que ele justamente por estar viva e ser tão talentosa quanto. E tinha gente morta no mínimo tão importante quanto ele e merecedora de homenagens iguais. Sentirei falta do Sidney Pollack, do Antony Minguella (morreram prematuramente também) e do Paul Newman.


A via nada evolucionária

março 27, 2009

Foi apenas um sonho é um filme angustiante e com final duvidoso.  A premissa é muito boa: um casal questiona as atitudes que os levaram a uma vida convencional, contra a qual nunca se identificaram, e busca mudanças. April Wheeler (Kate Winslet) e Frank Wheeler (Leonardo DiCaprio) vivem uma vida aparentemente muito boa: têm uma bela casa, belos filhos e ele, um bom emprego. Há harmonia familiar e segurança. É uma vida burguesa exemplar. No entanto, há neles também espírito de aventura e horror pela acomodação e pela convenção. O conflito surge quando, desgastados pela monotonia, eles decidem mudar para Paris, porém Frank recebe uma promoção no trabalho e recua, deixando April sozinha com seu sonho.

Este tema – do questionamento da convenção – já foi abordado em inúmeros filmes, principalmente naqueles feitos nos anos 60 e 70, no auge da contracultura e em uma época de grandes mudanças sociais e individuais. A esquerda triunfava. A burguesia era fonte constante de bons enredos, que mostravam as neuroses e as distorções produzidas por uma vida baseada em valores superficiais, moral rígida e papéis sociais inflexíveis. A família gerava neuroses e cerceava o indivíduo. Alguns (poucos) exemplos: Clamor do Sexo, de Elia Kazan; Cenas de um Casamento, A Hora do Lobo e Gritos e Sussurros, de Ingmar Bergman; Repulsa ao Sexo, do Roman Polanski; O Anjo Exterminador, O Discreto Charme da Burguesia e A Bela da Tarde, do Luis Buñuel; A Noite, do Michelangelo Antonioni; Uma Mulher sob Influência, do John Cassavetes. Tantos autores maravilhosos!  Há bons exemplos nacionais também, como as peças de Nelson Rodrigues e filmes maravilhosos que surgiram a partir delas como A Falecida, de Leon Hirshman e Toda Nudez Será Castigada, de Arnaldo Jabor. Naquela época – e ainda quando assistidos – esses filmes tocavam a convencionalidade burguesa com tanta maestria que até hoje são fonte de inspiração e de iluminação.

Mas e quando um filme contemporâneo tenta tocar neste assunto? Sem conseguir o resultado de seus antecessores, Foi apenas um sonho nos faz perguntar se a premissa do filme ainda é válida nos dias de hoje, visto que as escolhas individuais são infinitamente mais toleradas do que eram (levando-se em conta o pano de fundo da história: burguesia urbana, ocidental, escolarizada e laica). Acho que o próprio filme responde: enquanto seus antepassados eram ligados ao seu momento histórico, este drama é um filme de época. Só esta escolha já basta para mostrar que a questão mudou. Mantido o cenário, a premissa falha. Para dialogar com o passado, Sam Mendes poderia ter feito um filme atual. Aliás, pensando bem, faltam filmes que questionam os valores burgueses nos dias de hoje, esta época difusa e estranha em que os mocinhos e os bandidos andam se confundindo e na qual a ética nas relações tornou-se assunto mais do que relevante.

Como as protagonistas de Clamor do Sexo e de Toda Nudez Será Castigada, April Wheeler faz uma opção radical e violenta. Ao longo da narrativa, ela cai em um buraco sombrio, que fica cada vez mais fundo e do qual não há saída. Neste ponto, há um interessante paralelo entre o que acontece dentro da casa e o que acontece dentro da personagem que são o contrário da  paisagem bonitinha e calma do subúrbio e da beleza e vivacidade externadas pela protagonista. Os atores principais estão muito bem, igualmente o coadjuvante Michael Shannon, que interpreta John Givings, este sim uma espécie de anjo exterminador que implacavelmente destrói qualquer tentativa de re-equilíbrio com seus argumentos crus e verdadeiros.

 O final reservado a April só funciona se a personagem é elevada à categoria de mártir ou de exemplo. Ela precisa morrer, para que nós possamos continuar o que ela não conseguiu fazer, para que não caiamos na mesma armadilha. Porém, como pessoa, como possível realidade, falta-lhe maturidade, amor, tolerância, espiritualidade e, principalmente, um plano B. Aliás, faltam vários planos B. Falta-lhe uma mente mais aberta e um bom psicanalista. Como mulher, April é patética. O filme, no final, é uma narrativa sobre uma situação social – inaceitável para ela – e que lhe desencadeia uma depressão que não é reconhecida (nem por ela, nem por ninguém) e que não é tratada. April é uma anti-heroína. É uma sombra. Doente, angustiada, frustrada, deprimida e vazia. Que carma! Deus me livre cair numa situação dessas.


O Épico em O Curioso Caso de Benjamin Button

março 5, 2009

A estrutura narrativa em Benjamin Button mistura elementos do drama puro com elementos épicos, criando uma obra singular. Isto não é uma novidade nem no teatro, nem no cinema, onde grandes autores de ambas as artes utilizaram estas experimentações, originalmente teorizadas e aplicadas por Bertold Brecht. Em Benjamin Button, o debate que se seguiu ao seu lançamento conteve críticas injustas feitas justamente a escolhas que são autorais e artísticas: contar uma história a partir de um pano de fundo dramático completado por elementos épicos. O problema do debate foi confundir essas escolhas e chamá-las de defeitos, quando elas são, na verdade, conscientes e intencionais.

A dramática em Benjamin Button está no romance entre Daisy e Benjamin. Esse romance encadeia a narrativa. O tempo vai passando e, como nas histórias de amor clássicas, vemos os dois personagens se conhecerem, se apaixonarem e enfrentarem obstáculos que os mantém separados por boa parte de suas vidas. O impedimento principal é o fator que carrega a trama: a “doença” do protagonista. Os outros são conseqüências deste e estão ligados às decisões do par romântico diante da situação. A aparente diferença de idade faz com que eles se separem: Daisy tenta seduzi-lo e ele a recusa, depois é ela (em Nova York) que o manda embora. Mais tarde, já em Paris, após o acidente, ela também o repele. Por fim, cabe a Benjamin uma decisão final que é partir após o nascimento da filha, mas aí, não se trata mais de peripécia, mas sim uma decisão conclusiva.

Se fizermos um recorte e separarmos todas as cenas de interação entre Daisy e Benjamin teremos um filme de amor, que se resolve. Há uma ação encadeada, que envolve o espectador, o emociona, o entretém, que é praticamente linear e que faz o filme ter começo, meio e fim. Todo o resto, ou seja, todas as experiências de vida de Benjamin Button contadas de maneira episódicas são épicas. São os elementos que nos colocam como observadores, tanto quanto é observador o próprio narrador: a vida no asilo, a experiência da morte próxima, as viagens, os fatos históricos, os personagens que vêm e vão.

Foi este lado observador, aparentemente sem motivação, que provocou críticas ao filme, porque nas leis do drama, um personagem principal sempre tem objetivos bem definidos. Porém, na épica não. É esta característica que engrandece a história pois desloca a narrativa de uma posição ativa e evolutiva para uma posição reflexiva e em face do contexto em si. Três cenas no filme são chave para entender esta questão: de um diálogo com sua mãe, Benjamin aprende que a morte é a única certeza, de sua amiga pianista, ele aprende a dor da perda e de seu amigo pigmeu, ele entende sua solidão. Eis o que faz, em minha opinião, deste um grande filme: a maneira como aborda temas tão pulsantes.

Destaco também, o papel do asilo como o cenário mais importante da trama. Tudo começa e termina no asilo, ante-sala da morte. Diante de sua condição, Benjamin é obrigado a conviver com esses temas – a morte, a perda, a solidão – diariamente, o que o separa dos seus semelhantes e o coloca numa posição de acostumada lucidez. Benjamin é um personagem simbólico que vaga pela vida consciente de que está só de passagem, amigo intimo de um relógio que ele compreende de maneira diferente dos demais, nos convidando, como espectadores, a dividir com ele esta compreensão.


O Narrador em O Curioso Caso de Benjamin Button

janeiro 30, 2009

 

Na construção de Benjamin Button, a primeira questão que me parece importante é a narrativa em voice over. Neste filme, há dois narradores: um é o próprio Benjamin e, depois, Daisy. Tenho lido e participado de discussões interessantes sobre o voice over. Aparentemente, esta técnica parece ser uma aberração cinematográfica, capaz de destruir um bom filme. Descobri recentemente que, para algumas pessoas, o voice over distrai. O espectador perde contato com a história por causa de uma voz (que parece do além) que interfere no ritmo, como se não fizesse parte do filme e que, muitas vezes, apenas descreve o que já está sendo mostrado. Confesso que, ao assistir a um filme, a narrativa em off não provoca esta distração em mim. Mesmo filmes em português.  Em Tropa de Elite ou Central do Brasil, não me lembro de ter ficado distraída ou aborrecida com a voz do Wagner Moura ou da Fernanda Montenegro.

 

Há dois elementos que me distraem mais em um filme. Um deles é um gênero em si: o musical. Os mais recentes como Moulin Rouge são bem legais, mas os antigos são de doer. A música aparece no pior momento da narrativa e surge como um elemento forçado goela abaixo. Outro elemento é aquele texto inicial em alguns filmes que explica alguns fatos históricos para situar a audiência. É o caso de Guerra nas Estrelas. “O Império etc… etc…”. Não gosto muito disto não, pois essas introduções ou trazem informações que a gente já sabe ou que confundem.

 

O polêmico voice over, no entanto, aponta para uma questão maior: o ponto de vista na narrativa cinematográfica. O voice over me parece ainda a melhor alternativa para contar uma história a partir do protagonista. No caso de Benjamin Button, os autores fizeram escolhas interessantes. Button (Brad Pitt) conta a história para a sua filha a partir do seu diário. A filha (Julia Ormond) está na mesma situação que nós, a audiência: toda a história é inédita tanto para ela, quanto para nós. Por uma questão de verossimilhança, Pitt não poderia ser o narrador, visto que o seu personagem já morreu quando o filme começa. Ormond teria que ler o diário para nós. Contudo, o cinema permite essas liberdades de vozes, sem prejudicar a seqüência de ações ou o entendimento.  Para mim, tudo bem.

 

O diário de Button termina nos anos 80. Neste ponto, Daisy, em seus momentos finais, conta à sua filha e a nós o que aconteceu depois. Assim, ela tem a tarefa de continuar a contar o que ficou de fora do diário. A partir deste momento, é a sua voz que ouvimos em voice over. Nesse ponto, a narrativa de Benjamin Button não é só mais um curioso caso, mas é também a história de uma filha, de como seus pais tiveram esta vida tão diferente e de como sua mãe teve coragem de contar a ela toda a verdade em seus momentos finais. Essa alternância de narradores deu ao filme intensidade e complexidade.  Apenas senti falta de mais algumas frases por parte da personagem de Julia Ormond, peça importante nesta família.

 

Voltando à questão do ponto de vista, no caso de Button, temos dois narradores, contudo, os pontos de vista apenas se completam. Não são versões diferentes de uma mesma história. Aliás, fazendo um pequeno parêntesis, em uma cena, Daisy descobre que Benjamin ficou em Paris cuidando dela, mesmo depois de ela ter lhe pedido que partisse. Para mim, é um dos momentos mais importantes da narrativa, que é construída a partir das escolhas e sentimentos dos personagens: um mostra uma dor e arrependimento tão grandes, frutos da experiência de toda uma vida. Como ela  poderia saber deste detalhe sem o diário e nós, portanto, sem o voice over?

 

Na literatura, a escolha do ponto de vista do narrador da história é uma das questões criativas mais importantes. Pode-se brincar com o leitor que, pego desprevenido, tende a acreditar no que está lendo e supor que tudo que o narrador está contando é verdade. Sim, estou falando de Dom Casmurro, de Machado de Assis. Nosso caso mais célebre de narrador não confiável, que passou 60 anos do século XX como uma pessoa de caráter ilibado, até que alguém levantou as questões básicas: não parece estranho todo este ciúme, afinal, Otelo também estava enganado? Será que ela traiu mesmo? E até hoje, Capitu é um enigma. Por sinal, assisti à minissérie da Globo com bastante interesse para saber como eles resolveriam o narrador na adaptação para TV. Na minha opinião, resolveram muito bem, ao colocar Bentinho falando diretamente para a câmera. E toda aquela fotografia operística, tragicômica e exagerada parecia vir da mente do próprio Bentinho.

 

O problema do ponto de vista na narrativa cinematográfica está no fato de que a objetiva não consegue ser o olho de quem conta. Parece impossível. Benjamin Button pode nos informar que adorava velejar no barco de seu pai. Mas o que vemos, como espectadores neste momento, é um Benjamin jovem, iluminado por um sol ao entardecer, numa cena cinematograficamente linda. Não vemos o que ele vê. Uma cena muito parecida me ocorre agora. Trata-se de um pôr-do-sol também com Brad Pitt, 15 anos atrás, em Entrevista com o Vampiro. Neste filme, Louis (Brad Pitt) narra sua história a um repórter. Em um dado momento, o personagem descreve a última vez que viu o sol se por. Close up em Louis. De novo, nós somos avisados e levados a ver o personagem vendo outra paisagem. Nestes dois casos, há uma conotação explícita: admiramos a beleza de Benjamin/Louis em momentos que antecedem profundas mudanças nas duas narrativas.

 

No caso desses filmes, e isso eu acho muito especial e criativo, parece haver um narrador que nos escapa. Um cara que interfere e escolhe a imagem por nós, muito além do voice over. Sim, obviamente, são as escolhas do editor ou do diretor. Mas há algo além. Está na obra em si, no seu resultado na tela. Na literatura, por exemplo, um escritor que escreve um romance em terceira pessoa não é necessariamente o narrador da história. No caso de Benjamin Button, o filme em si acaba sendo uma mistura de diferentes vozes: visíveis, mudas, audíveis, invisíveis.

 

Nunca vi um filme em que a câmera assumisse totalmente o ponto de vista do personagem. Já vi um comercial, da Nike, que por sinal é muito bom: em pouco mais de um minuto acompanhamos a trajetória de um jogador de futebol de um clube menor para um clube na Europa. A câmera substitui seus olhos. O resultado faz com que nos tornemos esse jogador, essa é a questão. Em muitos filmes, usa-se esse recurso em alguns momentos da narrativa. Um bom exemplo é o belo filme francês O Escafandro e a Borboleta. Há ainda um ótimo exemplo de narrador que coloca os espectadores em situação de cumplicidade. Em Curtindo a Vida Adoidado, aquele filme dos anos 80, Ferris Bueller (Matthew Broderick) narra boa parte de suas aventuras. Ao final, acontece um último fato inesperado: a irmã de Ferris, até então sua arquiinimiga, o salva do inspetor escolar. Neste momento, Ferris olha para a câmera – para nós – de uma maneira irônica e de divertida surpresa. Por um segundo, que é o tempo desta “troca de olhares”, a narrativa pára. É como se a audiência e Ferris conseguissem ler o pensamento um do outro. Genial.

 

No fundo, talvez não seja possível estabelecer regras para o ponto de vista narrativo no cinema.  É possível sim, a partir de uma pesquisa mais acurada, descrever os recursos mais utilizados e a variedade de usos. O fato é que há inúmeras possibilidades artísticas e desafios técnicos que dependem do resultado que se quer. O melhor é testar e testar. Se o resultado é bom, por que não usar? Benjamin Button usa uma forma conhecida, bastante comum até, e que é bem eficiente para o que se propõe.

 


O Louco e o Mundo

abril 20, 2008

O Louco

Consegui encontrar um significado para Into The Wild (Na Natureza Selvagem), filme dirigido por Sean Penn, através das cartas do Tarô.  O filme perturba. Primeiro, por causa das escolhas do protagonista.  Confesso que já tive planos iguais, mas nunca os coloquei em prática.  O segundo ponto é o desfecho. Em sua determinação imatura, com seu espírituo aventureiro, o protagonista não estava preparado para o imprevisto e suas conseqüências. Mas, a sua experiência vai além.  sua viagem é uma grande lição de auto-conhecimento, desapego e amadurecimento. No tarô, esta é uma boa  descrição  para a carta do Louco.  E até o nome do personagem combina: Supertramp. Quem conhece tarô – e viu o filme –  vai entnder o que quero dizer. Acho que nunca vi um filme expressar tão bem o significado da Arcano do Louco. É uma jornada incrível em busca de uma essência.  Com o Tarô fica tão óbvio.  E o final é Mundo? Sim, Mundo. Nunca havia pensado nesta carta com este significado. Ainda é contraditório e perturbador para mim. Como diz aquela oração: “A minha vida é do tamanho dos meus sonhos”.


It´s a sad and beautiful world!

abril 16, 2008

Assisti esta noite a Down By Law do Jim Jamurch. Outro que desde os anos 80 estava na minha lista.  É a história de Jack, Zack e Roberto e como cada um lida com a vida . Marginais, tristes e ao mesmo tempo muito divertidos.  Ao contrário de Jack, Zack e dos personagens de Stranger than Paradise, o italiano Bob (Roberto Begnini) é uma figura que se sobressai. Ele diz: “eu sou uma alma boa” . E é. Ele tem uma alegria contagiante. É como se seu estado de espírito conduzisse as aventuras pelas quais eles passam. É ele que consegue achar uma fuga do presídio, comida no meio do pântano e uma italiana perdida na Louisiana. Ao final, só ele encontra um vínculo, amor. “Eu encontrei uma nova casa”, diz aos amigos. Não importa se é nos Estados Unidos ou na Itália. Estabelecemos uma nova casa quando estamos bem com a gente mesmo. Quanto aos outros, individualistas, nem leste, nem oeste, tanto faz o caminho quando não há razão. Buzz off

 


Beautiful Blue Nights

abril 13, 2008

My Blueberry Nithts é uma linda história de amor, simples, direta e sensível. O roteiro é primoroso, a edição é perfeita e o elenco aproveita a chance para brilhar. São jovens estrelas americanas fazendo um filme alternativo, dirigidas por Wong Kar Wai. Mostra que eles estão loucos por idéias sensíveis, de personagens reais vivendo situações cotidianas e que desafiam sua capacidade de atuar. E Wai tem um toque para histórias assim que é maravilhoso. Jude Law, por exemplo, que sempre me pareceu uma versão dos Tunderbirds, está tão bem. Seu olhar apaixonado é de cortar o coração.  Até agora me emociono quando relembro a cena em que Jeremy (Law) confessa à Elizabeth (Norah Jones) que, durante sua ausência, assistiu ao beijo que lhe roubou dezenas de vezes.  Aliás, a câmera da lanchonete é tão bem inserida no filme. Demais!  E Norah Jones? Como eu a conhecia do rádio, não tinha noção de quanto ela é jovem.  Essa menina tem uma voz tão doce e sua música The Story é muito, muito linda.  A cena final me fez chorar muito. Que beijo e que música! Para a história do cinema.

My Blueberry Nights

 

I don’t know how to begin
Cause the story has been told before
I will sing along I suppose
I guess it’s just how it goes

And now those spring in the air
I don’t go down anywhere
I guess it’s just how it goes
The story have all been told before

If you don’t try
The light won’t hit your eyes
And the moon won’t rise and fall in sight

If you don’t try
The light won’t hit your eyes
And the moon won’t rise and fall in sight

I don’t know how it’ll end
Though the records play
I guess it’s just how it goes
The story have all been told before
I guess it’s just how it goes
The story have all been told before
I guess it’s just how it goes

 


Irina Palm também não tem saudade

abril 11, 2008

Mais um filme sobre a vida na maturidade. Irina Palm é uma excelente idéia. Os personagens são bons e os atores também. Há um bom desenvolvimento de suas característcas psicológicas ao longo do filme. Contudo, em um dado momento a ação pára. Opção de autor ou falta do que mostrar?  Acho que isso acontece com muita gente que faz filmes. O insight vem, a idéia é ótima. Desenvolve-se bem o gatilho da trama e sabe-se como termina. Aí vem o recheio: há 30 minutos que precisam de ação, movimento e diálogos. E Irina Palm fica andando para lá e para cá indefinidamente. Complicado escrever esses três atos. Sempre ouço que a narrativa clássica é careta. Mas quem diz que é fácil? Não quero sugerir que o filme é ruim. Pelo contrário, é uma linda história sobre amor incondicional, sobre o amor de uma avó pelo seu neto, sobre o amor de um homem por uma mulher e de uma mulher por um homem em uma situação fora do comum, sobre o prazer de redescobrir um sentido para a vida, sobre superar limites e preconceitos e sobre gratidão. Precisa mais?

 


Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.