As ficções científicas este ano não estão memoráveis, apesar dos efeitos especiais melhorarem cada vez mais. A seguir, algumas palavras sobre quatro filmes recentes: o primeiro passou em janeiro, mês fraco de filmes, e se chama O Dia em que a Terra Parou, com o Keanu Reeves. O outro é Watchmen – O Filme. Na mesma linha, estrearam agora em maio, Star Trek e Wolverine.
O Dia em que a Terra Parou tem como destaque um enredo bíblico, mais precisamente do antigo testamento: a intervenção de uma força divina (hoje chamada extraterrestre, antigamente era Deus mesmo) nos destinos da humanidade. Klaatu (Keanu Reeves) é um mensageiro da galáxia que vem à Terra organizar e acionar a destruição de toda a nossa civilização pelo simples fato de que não somos dignos de habitá-la. Somos malignos, autodestrutivos, egocêntricos e corruptos. Sodoma e Gomorra.
Ao longo da narrativa, acompanhamos Klaatu realizar a sua tarefa e aprender a lidar com os terráqueos. Klaatu tem uma inteligência além do nosso alcance e a reação humana (americana) à sua presença é autoritária, narcísica, violenta e burra. Reação típica e, neste ponto, o filme ganha ares alegóricos. Como não consegue lidar com um poder desconhecido sem quebrar paradigmas, o planeta é quase destruído. Quem o salva é a cientista Helen Benson (Jennifer Connelly) que consegue fazer Klaatu mudar de idéia através do amor que demonstra pelo seu filho adotivo.
Este tipo de enredo é básico e ótimo para a ficção científica porque é uma maneira de reinterpretar mitos como o da Arca de Noé. Demonstra também como estas histórias exemplares e metafóricas ainda fazem parte de nossas vidas, mesmo se contadas com outras roupas. Interessante é a figura da mulher, do feminino, como mediadora entre um poder superior e a pequenez humana. Quase que chegamos ao Auto da Compadecida. Mas não é cristã a base mitológica deste filme. Ela é mais pagã. Se fosse crístico, Klaatu se chamaria Kal-El e teria vindo para nos salvar e não para nos destruir. Klaatu pode representar tanto o Deus hebreu, do primeiro testamento, como antigas manifestações greco-romanas. Há algo de Perséfone na Helen.
Visto por esse ângulo, a narrativa, acompanhada pelos ótimos efeitos especiais, tem certo interesse, mas o tema poderia ter sido melhor explorado e melhor atualizado. Faltaram diálogos e construção mais sólida e consistente dos personagens e das idéias que motivaram contar a história. A resolução é inverossímil. Ficou muito simples, quase como um filme de aventura, quando tinha tudo para ser memorável.
Já Watchmen tem momentos ótimos, transcendentes, porém o pacote, o todo é, no máximo, razoável. O filme tem quase três horas de duração para construir uma ficção científica que acontece no passado. Isto é bem original! No filme, o mundo era bem pior do que foi realmente e tinha esses super-heróis narcisistas, de direita, neuróticos, inseguros e megalomaníacos. Um perigo para a humanidade! Os personagens são explicitamente de direita: são racistas, defendem a ordem e a segurança pública e estão a serviço do governo americano, como armas de guerra. Essa é uma ótima sacada, afinal, justiceiros como Batman são, na verdade, criminosos, que agem quando o Estado, representando a sociedade como um todo, não consegue agir. O justiceiro ou o vigilante (Watchmen) se arvora um poder acima da lei. Isto não pode. Se todo mundo sair por aí se vingando, não será possível conviver e aí, acaba a sociedade. Digamos que a descrição psicológica dos Watchmen é coerente com a falência de uma sociedade que necessita de super-heróis.
O que falha em Watchmen é um personagem: o Dr. Manhattan (Billy Crudup). O Dr. Manhattan é maravilhoso. Por causa da radioatividade, o personagem desmaterializou-se e transcendeu. Ele é azul e milagrosamente nu durante bons momentos do filme (é tão raro ver nudez frontal masculina no cinema mainstream que o filme já valeu por isso). Seu poder permite que ele vá até Marte num piscar de olhos e sobreviva à força da gravidade, à falta de oxigênio e às temperaturas e ventos do inóspito planeta. Ele visita a Lua regularmente. Transa com a namorada e, ao mesmo tempo, constrói tecnologias futuristas. Ele pode prever o futuro e é desapegado. É um misto de iogue com cientista do MIT.
Se no filme O Dia em que a Terra Parou, Klaatu tem algo de bíblico, em Watchmen os personagens são todos inspirados nas mitologias pagãs. Eles são como deuses gregos disfarçados, com todas as idiossincrasias que essas divindades também tinham. Há coerência se levarmos em conta que eles são bem humanos e seus poderes dependem de treinamento e de tecnologia. Já o Dr. Manhattan não. O cara é quase um deus, uma avatar. Mas apesar de transcender a matéria, ele não evolui a ponto de se tornar um ser de mente absolutamente livre, que seria a grande sacada. Pensei em entrar no campo da espiritualidade, mas vou deixar de lado. Ele é apegado a soluções pequenas. Comporta-se como um alienado. É decepcionante como, ao final, ele aceita os argumentos destrutivos do Ozymandias (apresentado como o homem mais inteligente do mundo). O problema é que o argumento não tem nada de inteligente: a destruição da cidade de Nova York para o bem do resto do mundo, ou seja, os fins justificam os meios. A impressão final é a de que o roteiro é ruim: os autores não conseguiram encontrar uma solução mais adequada para o problema que criaram. Era óbvio que o Dr. Manhattan tinha que matar o Ozymandias e salvar Nova York.
Já Hugh Jackman fica nu, mas só de costas ou de lado, pois ele é um ator mais caro que o Billy Crudup (o Russell, de Quase Famosos). Wolverine é um filme de ação do começo ao fim e, como diria Alexandra, a personagem de Aleksandr Sokurov no filme de mesmo nome, “tem cheiro de homem”. O legal de assistir a filmes de ação como esse é o retrato do masculino que projetam. O homem de ação, em ação, resoluto, impiedoso e, quando necessário, amoroso e sensível. É demais.
Tem uma coisa freak no filme. No início, Wolverine não tem aquelas garras de adamiantum mas sim, de ossos que lhe saem das juntas das mãos pois ele é um mutante. Aquilo é muito esquisito. Até meio nojento de assistir. Parecem dedos sem pele.
Quanto à série X-Men, confesso que eu não gosto muito. Há momentos dos filmes anteriores que eu sinto vergonha de assistir. É que a Helle Barry de Tempestade tem algo de ridículo. Os personagens nos quadrinhos são muito melhores. Hugh Jackman dá a Wolverine o carisma que ele merece, com o sex appeal necessário. Quase cai no ridículo também, mas passa. É que nem Batman. Eu adoro o personagem, mas aquela roupa. Aquela máscara com orelhas pontudas! Bom, deixa prá lá. Eu devia me concentrar em assistir só filmes de arte.
Voltando a Wolverine, há uma cena de luta, no alto de um reator nuclear desativado, em que o personagem aparece de perfil sob um céu nublado. É maravilhosa. É aquele encontro perfeito entre a fotografia cinematográfica e o ator, mostrando que nasceram um para o outro. No mais, a narrativa é bem tosca. Em dado momento, há um assassino matando mutantes que lembra muito o Watchmen. Depois, o filme segue seu curso, com um complô do governo americano. Mas tudo é muito rápido demais para que o desenvolvimento dramático se sustente. É que nesses filmes, as cenas de ação precisam de um tempo maior, sufocando tudo que for narrativo. Com isso, há pelo menos dois momentos bem mal resolvidos: o romance de Wolverine e como ele recebeu o seu nome e, depois, quando ele é recebido pelo casal Kent, desculpa, os velhinhos fazendeiros cujo filho morreu e que o adotam em questão de minutos e lhe dão a moto e as roupas que são sua marca registrada.
No mais, como tem sido nos filmes americanos recentes, há muita alegoria nacional (cito aqui o Ismail Xavier). Wolverine e seu irmão são heróis de guerra – de todas as guerras – que vão se desiludindo com o lado em que estão. Um dos irmãos surta e vai para o lado negro da força. Wolverine, no entanto, mantém a integridade e é punido por isso. É um soldado que desiste de lutar na cavalaria porque esta se revelou inútil e sem razões fortes o suficiente para justificar a luta. A cavalaria está errada. Este é o lado alegórico da trama, que remete a Watchmen e a O Dia em que a Terra Parou. Nitidamente, esta é uma tendência do cinema americano. O soldado sem pátria ou, pior, uma pátria que é a inimiga. No caso de Wolverine, isso vai às últimas conseqüências, com ele perdendo a memória e, ao final do filme, negando suas raízes (detalhe: essa cena está após os créditos finais). Será que o filme está sugerindo, de maneira conservadora, que a alienação é a saída?
Esse tema da pátria como o império do mal, como a encarnação do lado negro da força, ainda dá muito pano pra manga. É uma verdade universalmente aceita que George Bush era o Darth Vader. Vamos ver agora como fica com o Obama.
Já Star Trek é um filme adolescente, muito bom para quem tem filhos pequenos e que estão chegando ao cinema. É para um público bem específico. Para quem acompanhou as séries, nos últimos 40 e tantos anos, é decepcionante. Tanto Wolverine quanto Star Trek terminam pedindo continuação. Wolverine, como James Bond, tem fôlego. Já Star Trek pode continuar na TV, que não faz diferença.